quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ringworld



Larry Niven (2005). Ringworld. Nova Iorque: Gollancz.

Ao terminar a leitura deste clássico, fiquei algo surpreendido por Ringworld ser considerado uma das obras marcantes da FC, com direito a edição na lendária SF Masterworks. A prosa de Niven é cativante, o seu mundo ficcional sólido, e o conceito de esfera de Dyson aplicado à escala de um anel planetário construído por uma civilização avançada é fortíssimo. Infelizmente, a história depressa resvala para uma espécie de buddy movie de aventura adolescente, com muitas incongruências que são aceitáveis na FC golden age, mas já não o são em obras vindas de uma era em que o género se afirmava em seriedade e complexidade.

Uma tripulação composta por dois humanos, um aguerrido alienígena dos Kzinti, uma espécie felina e um medroso mas manipulador alienígena dos Pierson's Puppeteers, uma espécie que valoriza a segurança acima de tudo fazem-se ao espaço para investigar uma anomalia detectada numa estrela distante. A promessa é a de receberem em troca um motor hiperlumínico, tecnologia dos marionetistas que dotará quer a humanidade quer os Kzinti de tecnologias que lhes permitam, milénios no futuro, proteger as suas civilizações de um colapso do centro da galáxia do qual os marionetistas, com o seu eterno receio, estão já a fugir, utilizando o seu planeta como nave espacial migratória. A anomalia revela-se um enorme anel que circunda uma estrela, um anel cujas vastidões albergam cidades, oceanos, desertos, docas espaciais, e os vestígios de uma civilização avançada decaída no barbarismo.

A história segue em ritmo de romance-périplo, cada página revela mais sobre os fascinantes segredos do Ringworld, ou sobre as histórias conjuntas das civilizações humana e alienígenas. A questão que, para mim, lhe fez perder o lustre foram detalhes que deitaram às urtigas as ideias de complexidade do mundo ficcional que, à partida, parecem tornear este livro. Começaria pela estranha compatibilidade entre as três espécies principais. Humanos, Kzinti e Puppeteers são radicalmente diferentes em fisiologia, mas todos respiram o mesmo ar, circulam pelos diferentes planetas sem problemas com micro-organismos ou outras armadilhas biológicas. A coisa piora no Ringworld, com os habitantes do planeta artificial a revelarem-se não só humanóides mas também sexualmente compatíveis com os humanos, um toque narrativo adolescente que marca o resvalar de obra de FC sólida para mera história de aventuras no espaço. Parte do enredo anda à volta de uma das personagens humanas, com uma sorte artificialmente desenhada através da manipulação da reprodução humana, levando a que a maioria das situações em que os personagens se descobrem seja atribuída à influência da sorte desta personagem. É um fio narrativo pseudo-científico que prejudica um livro considerado clássico da FC, na génese de uma série influente, e que apesar de ser uma leitura intrigante, me deixou desiludido nas expectativas que se têm perante uma obra clássica. Essencialmente, não é tão bom quanto se esperaria de um clássico.

1 comentário:

john disse...

Por acaso achei a prosa do Niven árida, para dizer o mínimo. E a personagem da Teela Brown, sendo interessante, é uma armadilha narrativa. Enfim, vale ao livro o arrojo conceptual - diria ser isso que lhe dá o estatuto de clássico. Mas quando o li também não consegui evitar uma certa desilusão.