terça-feira, 30 de agosto de 2016

Visões


Lo and Behold: Reveries of the Connected World (Werner Herzog, 2016)

Não consigo libertar-me da primeira crítica que li a este documentário do lendário cineasta Werner Herzog, no Kottke.org, creio. Dizia algo como famoso cineasta deslumbra-se em conversa com cientistas e líderes tecnológicos, e de facto é uma boa caracterização deste Lo and Behold. Deslumbramento com as origens, infraestruturas e possibilidades do mundo digital é talvez a palavra que melhor descreve um documentário que não parece pretender dar respostas a questões. Antes, é o registo meditativo de um percurso de aprendizagem pessoal, do olhar de um homem - o realizador, à descoberta do que para ele é um novo mundo. É uma perspectiva com a qual empatizo, recordando o meu fascínio crescente com a história da tecnologia digital, da evolução de algo que se tornou prevalente para os nossos dias. Herzog traz o seu olhar muito próprio ao mundo da internet, o que se traduz em entrevistas intrigantes, onde as palavras são contrabalançadas pela capacidade do realizador em captar um misto de fascínio e inocência no rosto dos entrevistados. As suas estéticas contemplativas conseguem traduzir a poesia dos servidores interligados por cabos, nos padrões aleatórios de luzes a piscar com o tráfego binário, ou a inocência humana daqueles com que se cruza. Os seus documentários têm o seu quê de experiência zen.



É sintomática a forma como Herzog inicia Lo and Behold. Com acordes do início de Das Rheingold de Wagner em crescendo, simbolizando o conceito de fluxo, um dos grandes temas inerentes a este documentário, mostra Leonard Kleinrock a contar a história do IMP-1 e da primeira mensagem enviada pela internet. Esperava-se que seria log, de log in, mas o computador receptor no SRI crashou antes de receber a letra g. Nos registos ficou a primeira mensagem ficou registada como lo, que Kleinrock, com o ar deslumbrado de quem reflectiu muito sobre esse momento, refere como parte da expressão inglesa de surpresa lo and behold!, em prenúncio de todo um novo território a desbravar. Suspeito que se dissermos the imp messaged lo, as in lo, and behold, talvez a expressão mude de sentido.

Parte daí uma viagem documentada a diferentes vertentes deste mundo conectado que tanto fascina Herzog. Com a sua maliciosa inocência, tanto entrevista personalidades de charneira como Robert Khan (um dos criadores da arquitectura da internet), Ted Nelson (criador do conceito de hipertexto, nunca na sua opinião utilizado da forma que defende como a correcta), Lawrence Krauss, Sebastian Thrun, Kevin Mitnick ou Elon Musk, como cientistas, especialistas em cibersegurança, astrofísicos, famílias vítimas de bullying online ou os habitantes da zona protegida de radiações perto do rádiotelescópio de Green Bank, que encontram no isolamento radiológico necessário para a ciência a cura para a sua hipersensibilidade às ondas electromagnéticas das redes celulares e wifi. Da origem da internet à robótica e inteligência artificial, Herzog dá-nos o seu retrato deslumbrado do mundo em hoje vivemos. Um mundo em que monges budistas parecem meditar olhando para os estritos confins do ecrã do seu smartphone, onde as  mudanças sociais e comportamentais possibilitadas pelo alastrar das tecnologias de comunicação nos surpreendem e chocam, embora como Lawrence Krauss observa ao extrapolar um futuro de isolamento humano no meio de redes, IA e robots, maybe for them, it will be good, ilustrando a forma como a percepção do que consideramos socialmente bom e aceitável muda com o passar do tempo.

Apesar do deslumbramento, a isenção de Herzog é admirável neste documentário. O fascínio é inerente à descoberta. Habituados como estamos a tecnologias que se banalizaram no nosso dia a dia e simplesmente funcionam, cuja infraestrutura nos passa despercebida, este olhar cheio de sense of wonder recupera o deslumbre pelo progresso tecnológico.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Comics


The Hellblazer #01: Mais um relançamento para John Constantine? Refira-se que o último, interessante e muito bem feito, era talvez demasiado arrojado para os gostos mainstream da DC. Este é mais comedido e regressa às origens do personagem, mas não deixa de fazer sentir que há mundo para lá dos comics. Como neste cartucho sobre Hitler e a sua promessa de make Germany great again. Parece o discurso de um certo candidato à presidência americana, não parece?


Weird Detective #03:  A banalidade do policial procedimental cruza-se com o horror lovecraftiano. O detective weird é um ser extra-terrestre que se incorpora como um polícia corrupto que mantém em coma na sua casa, para combater as miscigenações tentaculares entre criminosos de rua e os descendentes decaídos dos grandes anciãos. Imprescindível, para fãs de tentáculos à Lovecraft.


Wacky Raceland #03: Quando anunciaram que a série de desenhos animados Wacky Races (A Corrida Mais Louca do Mundo em português) iria ser revista pela DC, pensei que seria mais um título legacy act revivalista. Aparentemente, não foi esse o caminho seguido. As aventuras infantis dos corredores com as suas loucas geringonças foram revistas como delírio pós-apocalíptico. De desenho animado infantil com o grafismo tão anos 60 característico dos estúdios Hanna Barbera, passou a uma estética inspirada em Mad Max Fury Road e Desolation Alley. Com uma narrativa a seguir o mesmo caminho. Os excêntricos personagens e os seus absurdos veículos passaram a caricaturas insanas com automóveis delirantes controlados por inteligências artificiais. A hipérbole é tão exagerada, tão over the top que sobe bem acima dos telhados.

domingo, 28 de agosto de 2016

aCalopsia: Sobressaltos


Geraldes Lino (org.), et al (2016). Sobressaltos: Terror por autores portugueses de BD. Europress/Comic Heart.

Abrimos estes Sobressaltos, passamos as páginas do prefácio e somos avassalados por uma espantosa lição de narrativa e gramática da Banda Desenhada. Em três tiras e uma prancha, Joana Afonso consegue contar a sua história com uma eficácia e foco rigoroso, deslumbrando pela capacidade narrativa. Este livro, partindo de um desafio da tertúlia Sustos às Sextas, é uma boa mostra da qualidade gráfica e narrativa da BD que se faz por cá. Crítica completa no aCalopsia: Sobressaltos.

sábado, 27 de agosto de 2016

Pombagira





Fui à loja chinesa e encontrei a luz da religião. Entre os santos e as virgens marias, estes orixás estilo pr0n star em abuso de silicone. Diga-se que andavam por lá estatuetas de Yemanjá a fazer inveja a estas Pombagira. Ao quilo, é só levar para casa e venerar.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Zero to Maker


David Lang (2013). Zero to Maker: Learn (Just Enough) to Make (Just About) Anything. São Francisco: Maker Media.

Os livros da Maker Media não são um primor de profundidade e este não escapa à regra. Livros cheios de entusiasmo, que apostam no cativar de um público que se está a iniciar nas aventuras maker e anseia por saber um pouco mais, com guias introdutórios capazes de mostrar algumas das ferramentas desta nova vertente de trabalho e aprendizagem. É esse o seu mérito, e também demérito. A aposta na simplicidade implica que não sejam livros apropriados a quem queira aprofundar conhecimentos. Se descolarmos a epiderme de isto é tudo fantástico e fabuloso com e olhem que é tão simples usar estas ferramentas, pouco miolo resta. Se querem mesmo aprender a usar as ferramentas, não é com estes guias que se safam. E se querem saber mais sobre as implicações deste movimento, do que nos pode oferecer a nível pessoal, profissional, e, no que toca aos meus interesses, educacional, o que estes livros nos dão são curtos vislumbres de possibilidade. Não deixam de ter o mérito de permitir iniciação rápida.

No caso específico deste livro, o autor decidiu elaborar uma crónica da sua aprendizagem como maker. Lê-se como uma espécie de conto de fadas para fazedores, com uma comunidade aberta, elevada tolerância ao desconhecimento e falta de saber técnico, e um mar de rosas no acesso a equipamentos e projectos. Não que a comunidade maker seja fechada ou avessa à partillha, mas as curvas de aprendizagem técnica não são tão suaves quanto este livro faz parecer, nem o acesso a equipamentos tão facilitado. Diria que a afirmação mais perspicaz do livro está logo nas primeiras páginas, quando num curto parágrafo fala do seu mergulho neste mundo e da forma como passou de consumidor a criador. Um percurso espelhado por muitos. O resto do livro são introduções liminares ao conceito, comunidades, tecnologias de trabalho, modelos de negócio, legislação de direitos de autor e, pormenor que me interessou, iniciativas educacionais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ghost in the Shell


Masamune Shirow (2006). Ghost in the Shell. Milwaukie: Dark Horse Comics.

Demorou o seu tempo, mas finalmente li esta obra seminal quer do mangá quer da estética cyberpunk. Ghost in the Shell é o tipo de livro que só poderia ter surgido nos anos 90 do século XX, com o deslumbramento optimista por tecnologias digitais que inspiraram influentes voos de imaginação. Apesar de ser na base uma história de aventuras policiais, este mangá partilha do mesmo espaço conceptual da obra de escritores com Bruce Sterling ou William Gibson. É cyberpunk no seu estado puro, rico na iconografia tecnológica imaginária que desperta tecno-luxúria, aproveitando a diversão para reflectir sobre os impactos sociológicos das tecnologias, e sonhando com uma promessa dual de sentiência e imortalidade digital, assente nos electrões que circulam pelas redes.

As personagens de Shirow transcendem os limites fisiológicos através de implantes tecnológicos, restando do humano original pouco mais do que a aparência, alguns orgãos vitais e a aderência a códigos culturais, embora o final deste volume pareça colocar em causa este último factor em nome de conceitos de evolução transhumanista. Prevalente na série está uma visão abstracta do ser e da humanidade, vista como algo mental e independente do corpo, abrindo espaço ao oposto, ao reconhecer de sentiência e individualidade a inteligências artificiais. Uma visão explorada com rigor, numa narrativa estrutural progressiva que se mantém constante ao longo das diversas aventuras.

E, claro, é um mangá divertido, com as peripécias dos agentes da secção de operações especiais que se ocupa de missões secretas para manter a segurança num Japão futuro. A equipa operacional, liderada pela esbelta cyborg Motoko Kusanagi, é especialista no combate a ameaças cibernéticas e vai deparar-se com uma inteligência artificial que, sentindo-se transcendente, escapou aos seus criadores. Pelo meio vão vivendo aventuras com muita acção e intriga, temperadas por uma forte dose de humor.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Hail Hydra


Um dos defeitos, ou talvez virtude, dos comics enquanto género é a sua repetição cíclica. Os limites são estreitos, e em títulos com longas histórias de edição boa parte dos leitores não conhece o que está para trás. Num meio em que as origens estão constantemente a ser revistas, recontadas, reformuladas e reinventadas, é fácil perder o fio a uma meada acessível apenas aos fãs mais aguerridos de uma personagem.

A tira reproduzida acima saiu da revista Tales of Suspense #65, editada em maio de 1965 e reproduzida no Captain America Masterworks vol. 1. É uma das histórias originais de Stan Lee e Jack Kirby do Capitão América, escrita nos anos 60, quando a Marvel deixou de lado os títulos de western e romance para se focar nos super-heróis. Nesta, segundo capítulo da origem de Red Skull, vemos o impensável: o símbolo máximo do patriotismo americano a jurar fidelidade ao III Reich.


Soa familiar, não soa? Recentemente, o fandom ficou escandalizado por esta surpresa contida em Steve Rogesr Captain America #01. Novo título da Marvel, dedicado ao seu mais icónico personagem, surpreendeu todos graças a esta vinheta em que o sentinela da liberdade revela a sua lealdade à Hydra, organização que combateu desde sempre. O tom geral do fandom era de desilusão. Será que toda a mitologia do personagem iria ser revelada como falsa, anulando décadas de histórias? Bem, sendo o mundo dos comics o que é, claro que a reposta é mais elaborada e previsível. O Capitão encontra-se sob efeito de um artefacto cósmico cúbico, apropriado por Red Skull para lhe alterar as memórias em mais uma das suas vinganças contra o seu arqui-inimigo, que sabemos, pela própria natureza do género, que falhará redondamente.


Nos anos 60, bastou um gás hipnótico para fazer o serviço do cubo cósmico. Claro que o herói irá recuperar a sua memória a tempo de evitar uma catástrofe, que nesta história seria o assassinato de um comandante aliado para facilitar a vida aos exércitos nazis e desacreditar o Capitão. Nestas histórias, Lee e Kirby utilizaram as aventuras na II Guerra para criar o substrato do personagem que recuperaram da antiga Timely Comics. Curiosamente, uma estratégia similar à que foi desenvolvida no universo cinematográfico que a Marvel tem sabido aproveitar bem. O filme que introduziu a personagem ao cinema desenrolou-se nesta época, terminando com o acordar do personagem nos tempos contemporâneos.


E, por falar em Red Skull e cubos cósmicos... na história He Who Holds The Cosmic Cube, publicada na  Tales of Suspense #80, de julho de 1966, o arqui-inimigo do Capitão apodera-se de um cubo cósmico desenvolvido pelos cientistas da Advanced Idea Mechanics, e prepara-se para dominar o universo. Fica-se com a sensação que ao pegar em Steve Rogers Captain America, o argumentista Nick Spencer fez o seu trabalho de casa, releu as histórias clássicas de Stan Lee e Jack Kirby, e remisturou os seus elementos para chocar um fandom desconhecedor do lado mais arcano dos comics. Os comics vivem muito deste remisturar de material antigo, dando-lhe novas roupagens para se tentarem manter contemporâneos.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy



Filipe Melo, Juan Cavia, Santiago Villa (2016). Os Contos Inéditos de Dog Mendonça e Pizzaboy. Lisboa: Tinta da China.

Nunca me teria apercebido do espanto que se tornou esta série, bem como da pedrada no charco que foi no meio da BD portuguesa, se não pelo Amadora BD. Quando surgiu o primeiro volume, o título não me encantou por aí além. "Dog Mendonça e Pizzaboy? que título ridículo", mais um daqueles livros de BD jocosos, a ironizar os comics de super-heróis. Um pouco à semelhança de Luis Louro e o seu O Corvo, pensei, com um traço interessante mas argumentos a perder a durabilidade naquela piada fácil e ironia simplista que agrada no momento mas não sobrevive à segunda leitora. Vertentes que têm o seu espaço e fãs, mas não são de todo as minhas favoritas.

Foi numa edição do clássico festival, numa exposição dedicada ao segundo volume da série, que me apercebi que talvez estivesse errado nesta minha impressão. O momento de clic deu-se ao ver as espantosas ilustrações de Juan Cavia e Santiago Villa, mostrando visões fabulosas de uma Lisboa reinventada para o visual horror retro deste comic. Arrisquei, e rendi-me. Li, ao contrário do que esperava, uma belíssima e divertida história que, apesar de se aguentar por si, é também uma profunda homenagem ao terror clássico no cinema e literatura.

Esta história de merecido sucesso gerou três álbuns inéditos, e algo que, que eu saiba, é completamente inédito na BD portuguesa: a publicação na Dark Horse Presents, revista antológica editada por uma das maiores editoras de comics norte-americana. Haver ilustradores portugueses a trabalhar para as maiores e mais icónicas editoras de comics já não é, felizmente, novidade. Mas histórias portuguesas editadas nos espaços editoriais de língua inglesa são-no, tanto quanto sei. Este é outro mérito conseguido por Filipe Melo com a sua série. São estes os contos coligidos neste quarto volume da trilogia, trazidos ao público português pela Tinta da China como epílogo merecido.

As histórias publicadas na Dark Horse Presents expandem a história do carismático lobisomem de Tondela. São necessariamente curtas, mas conseguem evidenciar os elementos que tornam Dog Mendonça e Pizzaboy numa merecida série de culto: a sublimação da iconografia do terror clássico, claramente alimentada por uma dieta do argumentista composta por demasiados filmes de série B, e um mundo ficcional original, que parte da influência cinematográfica para se afirmar como universo próprio. Sublinham também a combinação qualitativa que deu o sucesso à série: o argumento de Filipe Melo, o traço realista com toque de cartoon de Juan Cavia e a paleta cuidada de Santiago Villa.

Estas três histórias curtas, encadeadas, constituem uma história de origem do personagem e, por extensão, do seu mundo ficcional. Uma narrativa que é temperada por uma selecção cuidada dos elementos mais esgrouviados do horror clássico: lendas de lobisomens, circos de horrores, nazis com propensão para experiências com o oculto, seres monstruosos mas bondosos que vítimas de perseguições implacáveis. Aqui, sublinho o detalhe das notáveis vinhetas de recorte Myazaki com o périplo dos monstros em fuga. Não surpreende, é mais uma das muitas referências ao cinema que abundam nesta obra. Termina com uma aventura curtíssima a brincar com os mitos do Monstro do Loch Ness, que mostra o equilíbrio entre horror tradicional e bom humor que caracteriza a série.

É interessante notar que os autores têm sabido fugir à tentação de dar continuidade à série. Os fãs gostariam, certamente, e suspeito que os editores também não se importariam, mas sente-se que a série terminou no terceiro volume da trilogia, agora completo com contos. A vontade de ler mais aventuras deste universo ficcional é grande, mas conhece-se o risco de se esgotar e banalizar. A continuidade das colaborações entre Melo e Cavia está assegurada, com o recente lançamento de Os Vampiros.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Comics


Brigg's Land #01: Depois de futurismo proto-contemporâneo apocalíptico, o próximo desafio de Brian Wood são as seitas libertárias extremas, armadas com armamento pesado, balas e bíblias. Com uma vertente de abordagem curiosa: o líder, tipicamente desprezível e carismático, está preso, e é a sua habitualmente submissiva esposa que vai tomar as rédeas ao grupo. Intrigante.


Descender #14: Se é bom ler uma space opera com toques cyberpunk, o que dá valor adicional a esta série de Lemire é o traço solto, aguarelado, de Dustin Nguyen. Toca na estética da FC, sem se perder nos barroquismos a que estamos habituados nestas iconografias.

domingo, 21 de agosto de 2016

Letargia Estival


Castro Verde


Pulo do Lobo


Castro Verde


Cabo Sardão


Vila Nova de Milfontes


Odemira


Mértola


Beja


Cais Palafítico da Carrasqueira


Cais Palafítico da Carrasqueira


Minas de S. Domingos


Pomarão


Vila Real de Santo António


Ayamonte


Castro Verde


Beja


Grândola

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Computador: Universo!


AE Van Vogt (1983). Computador: Universo! Odivelas: Europress.

Uma premissa intrigante, a que agora estamos habituados mas era, na altura, inconcebível. Este livro baseia-se na ideia que um computador poderia dominar um país, gerindo a economia, sendo responsável pela automatização dos transportes, e libertando os humanos da necessidade de trabalhar. No entanto, perde-se numa história confusa e pouco interessante, entre militares com sede de poder, rebeldes com capacidades de mutação corporal, e uma curiosa funcionalidade do mega-computador em captar e registar uma espécie de alma humana, composta por esferas luminosas. Não é Van Vogt no seu melhor.

No entanto, a ideia de um super-computador, capaz de vigilância pervasiva através de uma rede de câmaras e sensores, com circuitos automatizados para gerir toda uma nação, baseada numa mainframe tem o seu quê de singular.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Dicionário de Lugares Imaginários



Alberto Manguel, Gianni Guadalupi (2013). Dicionário de Lugares Imaginários. Lisboa: Tinta da China.

Nesta era em que cada milímetro quadrado do planeta está mapeado com rigor, observado pelo olhar lenticular dos satélites em órbita, cada recanto registado pelas suas coordenadas no espaço abstracto dos meridianos e paralelos, fotografado nos espectros do infravermelho ao ultravioleta, calcorreado por exploradores, aventureiros ou servos de gigantes tecnológicos apostados em digitalizar o planeta, traçado em atlas e mapas pixelizados, precisamos talvez mais do que nunca de espaços desconhecidos, de vazios nos mapas que prometem dragões e ao fazê-lo despertam os voos mais exóticos da imaginação humana. Foi este o meu primeiro pensamento ao folhear este delicioso tomo. Escrevi isto antes de o abrir com olhos de leitor, e só depois li o fantástico prefácio de Manguel, que espelha com precisão esta necessidade de imaginar o desconhecido na era onde as luzes do conhecimento iluminam o mais recôndito, longínquo ou obscuro. Não só, mas também o fascínio pelos voos de imaginação, pelos locais que existem em mapas que mapeiam não a geografia física mas os escolhos e penedos da imaginação sonhadora.

A lista é longa e exaustiva, itemizada de A a Z. Duvido que tenha esgotado as geografias imaginárias da literatura. Não vi por lá referências à FC, tendo os autores ido beber às especulações filosóficas, história antiga, fantástico, fantasia e surrealismo. Depois do longo mergulho nos apontamentos sobre estes mundos, há padrões que se fazem notar. Um é o óbvio encantamento dos autores por uma certa fantasia épica, bem como de alguma fantasia infantil. Richard Adams, Ursula K. LeGuin e Tolkien têm um peso muito elevado nas entradas deste dicionário. Os mundos de Oz e Dr. Doolittle não são tão interessantes quanto o peso que têm neste livro. O outro grande padrão é a evolução conceptual dos mundos de ficção. Apesar do livro não estar ordenado de forma cronológica, nota-se que há uma evolução das geografias imaginárias. Nos textos mais antigos são utilizados como parábola filosófica, utópica, satírica ou religiosa. A tónica está na mensagem que os autores pretendiam inculcar nos seus leitores, e não na coerência dos mundos ficcionais. Um elemento que se altera, com a ficção a explorar estas geografias do imaginário apenas pelo prazer de criar novos mundos, algo que caracteriza a fantasia de hoje.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Comics


Providence #10: Metodicamente, Alan Moore começa a ligar as pontas e a mostrar-nos a sua visão dos mythos lovecraftianos. E se, pergunta-nos através deste diálogo, Lovecraft não tivesse imaginado as suas criações, mas sido escolhido como mensageiro de forças para lá da nossa compreensão, que entram no nosso mundo, se alojam na mente sob a cobertura de inócuos sonhos de literatura pulp? Digamos que o enciclopédico argumentista conseguiu unificar os diferentes contos de Lovecraft, bem como a biografia do autor, e as ramificações que o antecedem e sucedem em Robert Chambers, Ambrose Bierce e Robert Bloch numa continuidade lógica que faz justiça à paranóia discreta do horror lovecraftiano. Moore é um velho mestre. Tem construído este Providence com método e discrição, evitando momentos de elevado horror, com tudo a apontar para um final apocalíptico, apropriado aos mythos.


War Stories #19: Esta mistura de ficção com realismo histórico que Garth Ennis tem vindo a desevolver nesta série resulta num trabalho excelente. War Stories, apesar do tema, não é militarista, revisionista, incitador a emoções marciais nostálgics ou focado na guerra como aventura juvenil. Os seus episódios ficcionais baseiam-se num óbvio trabalho de pesquisa profunda, que retratam momentos das guerras que marcaram o século XX. Desta vez, o argumentista vira-se para os primeiros defensores britânicos dos céus nocturnos.